No coração da paisagem rural de Salvaterra do Extremo, em Portugal, ergue-se o majestoso Ninho Globo, uma criação do Atelier YokYok. Esta estrutura esférica, meticulosamente construída à mão, emerge das profundezas da terra, evocando a essência dos corpos planetários e das formações minerais. Utilizando xisto negro e granito, materiais extraídos da própria terra que a acolhe, a obra se posiciona em um antigo local agrícola, um cenário já moldado pela interação humana e pelos processos naturais ao longo dos séculos.
A presença do Ninho Globo transcende a mera intervenção artística. Situada na fronteira oriental entre Portugal e Espanha, a instalação oferece uma vista panorâmica que abrange tanto territórios portugueses quanto espanhóis. Os vestígios de antigos abrigos de pedra e estruturas de criação de porcos, construídos com bases de granito e lajes de pedra, conferem ao local uma importância arqueológica e cultural inegável, um testemunho da história local.
Inspirando-se diretamente no ambiente que a cerca, a esfera adota a forma geométrica primordial, simbolizando uma configuração espacial estruturalmente eficiente e equilibrada, com seus cinco metros de diâmetro. Seu volume sólido exprime uma estabilidade monumental, convidando à habitação e ao refúgio. Uma fissura estreita rasga a esfera, uma abertura que evoca padrões de erosão esculpidos pela água ao longo do tempo, aludindo à ausência e à vital importância da água na região.
O interior oco do Ninho Globo remete a cavidades naturais, a ninhos, posicionando-se como um abrigo, uma proteção contra o mundo exterior. A ambiguidade entre globo e ninho levanta questões sobre escala, uso e a responsabilidade compartilhada dentro da paisagem. A paleta de materiais estabelece uma conexão profunda entre o tempo arquitetônico e geológico, com o xisto negro em camadas contrastando com as fundações de granito, materiais tradicionalmente associados ao centro de Portugal.
A construção desta obra prima seguiu uma abordagem de baixa tecnologia, confiando em técnicas manuais e no trabalho coletivo. Os artistas colaboraram com membros da comunidade local, utilizando ferramentas simples e processos rudimentares para erguer a estrutura in situ. O projeto fez parte do Landscape Together, uma iniciativa promovida pela MAG – Marques de Aguiar, associada ao museu a céu aberto Museu Experimenta Paisagem, com foco em obras específicas do local, desenvolvidas através de princípios de design sustentável e engajamento comunitário.
Co-financiado pelo programa Creative Europe da União Europeia, o Landscape Together reuniu artistas, instituições e comunidades locais de diversos países para contribuir com iniciativas de desenvolvimento cultural, educacional e territorial no Portugal rural. Agora parte da coleção permanente do Museu Experimenta Paisagem, o Ninho Globo é um testemunho monumental da colaboração entre arte contemporânea e história local.
A estrutura, uma esfera majestosa de xisto negro, convida a um encontro direto e físico, onde a fissura ilustra tanto o traço quanto a ausência da água, um elemento precioso e vital. O projeto nos leva a questionar nossa relação com o habitat, o bem comum e a passagem do tempo. Exposta aos elementos, a localização oferece uma vista panorâmica para o leste, em direção à Espanha, transmitindo uma sensação de permanência que engaja os corpos e sentidos dos visitantes, enquanto o Atelier YokYok tece uma ponte entre a história local e a prática artística contemporânea.